martes, octubre 20, 2020

Indy, onde um campeão sem vaga pode vencer aos 47 anos (e com um carro de exposição)

Texto: Geferson Kern / colaborador Brasil do IndyCarLatinos.com

Faltam 17 dias para as 500 Milhas de Indianápolis. Na maior prova do planeta, 17 anos é o maior intervalo de tempo entre a primeira e a última vitória de um mesmo piloto.

A derradeira veio numa ocasião mais do que extraordinária, quando a garrafa de leite mais cobiçada do automobilismo foi degustada por um piloto que iniciou o Mês de Maio sem carro – e correu num bólido do ano anterior que, até então, servia como mero carro de exposições.

Depois de conquistar o título da Indy em 85 por um ponto e em cima do próprio filho, Al Unser decidiu se aposentar. Fez um acordo com sua equipe, a Penske, para disputar apenas cinco provas na temporada seguinte – a abertura em Phoenix, o encerramento em Miami e as corridas de 500 Milhas, em Indianápolis, Michigan e Pocono, ao lado da dupla titular formada por Rick Mears e Danny Sullivan.

O acordo não foi renovado para a 1987. E a despeito de ter vencido dois dos quatro últimos campeonatos – havia levado a taça também em 1983 – e já ser tricampeão da Indy 500, Unser chegou a Indianápolis com a perspectiva de ficar fora do grid pela primeira vez desde sua estreia, em 65 – com exceção da edição de 1969, quando não correu por quebrar o braço, ao cair de sua motocicleta no infield do circuito na noite anterior ao Pole Day.

A Penske, no entanto, manteria um terceiro carro. O empresário Ted Field, dono da equipe Interscope – e hoje um dos 400 homens mais ricos do mundo -, conseguiu um acordo para colocar seu piloto Danny Ongais no carro que pertencia a Unser. O havaiano, no entanto, sofreria o mais sério dos incríveis 25 acidentes, entre treinos e classificação, ocorridos ao longo daquele Mês de Maio no Speedway, quando bateu na saída da curva 4 e sofreu uma concussão.

Era o que faltava para aumentar a angústia da Penske, que vinha de uma temporada com somente duas vitórias e, a dois dias do início dos Time Trials, não encontrava velocidade em seus Penske equipados com o novíssimo motor Ilmor-Chevrolet.

O nome de Unser como substituto de Ongais só seria confirmado no dia 13 de maio, quando Mario Andretti já havia confirmado a pole-position e após dois dos quatro treinos classificatórios já terem sido disputados. O carro que o piloto do Novo México utilizaria, um March-Cosworth do ano anterior, estava exposto no saguão de um hotel em Reading, na Pensilvânia, apenas semanas antes da prova. O improviso foi tamanho que não havia sequer adesivos apropriados para estampar o nome da Cummins, que se tornou o principal patrocinador do carro.

Desta forma, o adesivo com o logotipo correto da empresa foi colado no sidepod do lado esquerdo, o que possuía maior visibilidade, sobretudo em fotografias. Já do lado direito havia um adesivo alternativo com o nome da companhia grafado todo em letras maiúsculas. Mesmo com tudo isso e apenas três dias após ser contratado, Unser escapou do drama do Bump Day e garantiu vaga no grid com um 22º lugar.

Mario Andretti lideró 170 vueltas, pero el destino le jugó otra mala pasada (FOTO: Indianapolis Motor Speedway)
Mario Andretti lideró 170 vueltas, pero el destino le jugó otra mala pasada (FOTO: Indianapolis Motor Speedway)

A prova foi totalmente dominada por Andretti: na volta 177, quando já havia liderado 170 passagens e levava uma volta de vantagem para o segundo colocado, Roberto Guerrero – e pelo menos duas sobre todo o resto do grid -, seu carro ficou subitamente lento na entrada da reta principal, com um problema no sistema de alimentação de combustível. Ele ainda conseguiu chegar aos boxes, mas a liderança passava às mãos do surpreendente Guerrero, vencedor da etapa anterior, em Phoenix. O colombiano ainda possuía um pit stop a ser feito, mas levava uma volta de vantagem sobre Al Unser, agora alçado ao segundo posto.

Na volta 182, o sul-americano foi aos boxes. Abastecimento feito sem problemas, mas motor apagado. A equipe Vince Granatelli tentava de todas as formas recolocar o belo March-Cosworth vermelho #4 na pista, mas algo havia errado. A explicação: bem antes, na volta 130, Tony Bettenhausen Jr. perdeu uma roda na curva 3, que perambulou pela pista até ser atingida pela ponta do bico do carro de Guerrero.

A base do bico presa ao chassis abrigava o cilindro-mestre da embreagem, que passou a vazar fluídos e não mais funcionar como devia – o que não foi percebido naquela hora, com a prova a todo o vapor, mesmo com a troca do bico. Num oval de altíssimas velocidades e quase sem trocas de marchas como Indianápolis, não contar com a embreagem não é um problema grave. A menos quando é necessário parar o carro e recolocá-lo em movimento, como por exemplo… na saída de um pit stop.

Em tempo: o pior disso tudo foi que o pneu atingido pelo bico do carro de Guerrero voou em direção às arquibancadas e atingiu a cabeça de um torcedor, Lyle Kurtenbach, 41 anos, que foi levado ao Hospital Metodista de Indianápolis, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu.

Enquanto Guerrero passava trabalho para voltar à pista, Unser descontava a volta e assumia a liderança. Desta vez, era o colombiano quem estava em segundo com uma volta atrás. Para espanto geral, ele ainda ganharia uma sobrevida, ao descontar a volta e ver a bandeira amarela ser agitada a apenas oito voltas do fim, quando Andretti, numa tentativa de voltar à prova, parou na curva 4. 

Não foi o suficiente: Al Unser segurou a pressão, se tornou o homem que mais voltas liderou na história da prova e, em 24 de maio de 1987, onze dias após ser contratado e apenas cinco antes de completar 48 anos, venceu a prova. Se tornou apenas o segundo a conquistar o tetra em Indy, o mais velho a vencer as 500 em todos os tempos e dono de uma das histórias mais espetaculares que o Speedway já contou.

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