miércoles, octubre 21, 2020

Milton: primeiro bicampeão em Indy e mais do que isso em sua superação

Faltam dois dias para as 500 Milhas de Indianápolis. Dois é o número de vitórias na prova de Tommy Milton, um americano nascido em 1893 no estado de Minnesota que se tornou, também, o primeiro bicampeão da prova.

O que, por incrível que pareça, talvez não seja seu maior feito na carreira: Milton competia – e vencia – com visão em apenas um de seus olhos, o que provavelmente tornaria impossível sua presença no automobilismo dos dias de hoje.

A destreza e o currículo de Milton diante de sua limitação física era incrível: ele era cego do olho esquerdo desde que nasceu e possuía cerca de dois terços da capacidade de visão no olho direito. Iniciou sua carreira aos 21 anos, em 1914, em provas regionais em ovais de terra. Apenas dois anos mais tarde, em 1916, ele estava apto para enfrentar alguns dos grandes nomes do automobilismo americano da época, em provas de envergadura nacional. A primeira vitória veio em 1917, num oval com piso de concreto na cidade de Providence.

Em 1921, Milton juntou-se à equipe Frontenac, na vaga deixava por Gaston Chevrolet, o mais jovem dos três irmãos Chevrolet que haviam vendido a empresa de mesmo sobrenome para o fundador da General Motors, Will Durant, alguns anos antes. Gaston havia vencido as 500 Milhas de Indianápolis de 1920, mas perdido a vida ao fim do ano, num trágico acidente no oval com piso de tábuas de madeira de Beverly Hills.

Naquele ano, foi a vez de Milton, em sua terceira participação, vencer a prova mais prestigiada da temporada pela primeira vez, em corrida dominada por Ralph DePalma, um dos grandes especialistas de Indianápolis da época e da história – ele venceu a prova em 1915 e abandonou a duas voltas do fim em 1912, depois de ter liderado 196 de 200 voltas. No ano da primeira vitória de Milton, foi um motor estourado que tirou DePalma do caminho. 

Ainda em 1921, Milton conquistou seu primeiro e único título do campeonato de Fórmula Indy da época, organizado pela AAA (American Automobile Association, ou Associação Americana do Automóvel). Ele venceu três das 20 provas que contavam pontos para o campeonato (das quais duas rodadas quíntuplas no supracitado oval de tábuas de Beverly Hills). Os também chamados board ovals, diga-se, predominavam à época: apenas a pista de Indianápolis, ainda toda pavimentada com tijolos, bem como o oval de terra de Syracuse, no estado de Nova Iorque, não possuíam pisos de tábuas no calendário daquele ano.

Em 1922, o título no campeonato e nas 500 Milhas foi para aquele que seria o grande rival de Milton naqueles tempos, Jimmy Murphy, que tornou-se o primeiro a largar na pole e vencer uma mesma edição da Indy 500. O troco de Milton veio no ano seguinte e na mesma moeda, com pole e vitória nas 500 Milhas, com direito a nada menos do que 128 voltas lideradas das 200 disputadas.

O trunfo de Milton, porém, teve uma ajuda providencial: entre as voltas 103 e 151, ele foi substituído no comando do carro por Howdy Wilcox, prática comum na época. No entanto, quando um mesmo piloto largava e recebia a bandeirada, seu substituto não era creditado – diferente do que ocorreria no ano seguinte, por exemplo, quando o carro em que Lora Corum largou foi assumido por Joe Boyer ao longo da corrida, que levou a máquina até a bandeirada – e os dois foram creditados como os primeiros a vencer em dupla a corrida na história.

Enquanto Wilcox, campeão da prova de Indianápolis em 1919, comandava o carro no ano do bicampeonato de Milton, este aproveitava para se regenerar fisicamente: durante a pausa, ele precisou enfaixar as mãos que estavam tomadas por bolhas e trocar os sapatos, em virtude de doloridas dobras em seus dedos dos pés. Coisas de uma época em que as provas eram especialmente desgastantes – a Indy 500 daquele ano foi cumprida em exatas cinco horas e 29 minutos.

Ah: a prova de 1923 vencida por Milton foi a primeira com a participação de pilotos sul-americanos e/ou latinos em Indianápolis. A honra coube aos argentinos Raúl Riganti e Martín de Álzaga, que chegou a largar em quarto. Ambos, porém, abandonaram e acabaram classificados em 22º e 24º lugares, respectivamente.

Milton ainda competiria até 1927 quando se retirou para ser engenheiro da Packard, fabricante de carros de luxo muito prestigiada à época. Foi assim que ele foi convidado a retornar a Indianápolis em 1936, para guiar o Pace Car na prova, quando deu uma sugestão que foi aceita e é adotada até hoje: a de presentear o vencedor da corrida com o Pace Car daquela edição. O primeiro beneficiado pela ideia do primeiro bicampeão da prova foi Louis Meyer, vencedor da corrida de 36, quando se tornou, curiosamente, o primeiro tricampeão de Indianápolis. No mesmo ano em que, ao chegar ao Victory Lane, pediu uma garrafa de leite para beber e inaugurou outra tradição imortal da prova.

Em sua carreira automobilística, Milton também foi chefe dos comissários nas 500 Milhas de 1949 a 1952 e, ainda nos tempos de piloto, recordista de uma série de provas de velocidade. Um exemplo de perseverança e habilidade independente das dificuldades. Daquelas histórias que tinha de ser em Indianápolis para acontecer.

Texto: Geferson Kern/colaborador Brasil do IndyCarLatinos.com

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