lunes, octubre 26, 2020

Pela primeira vez em 21 anos, uma prova de Indy sem brasileiro no grid

Texto: Geferson Kern – colaborador Brasil do IndyCarLatinos.com

Pesquisa: Antônio Pessoa

A Fórmula Indy chega a Indianápolis no próximo dia 4 de julho para uma prova que quebrará uma série de tabus. Será a primeira vez que a categoria corre no lendário Indianapolis Motor Speedway fora do mês de maio.

A primeira vez também que correrá no mesmo autódromo, conhecido por receber mais de 300 mil pessoas quando da realização das 500 Milhas de Indianápolis, com portões fechados. É ainda a primeira ocasião na história em que a Indy dividirá um fim de semana de corrida com a Nascar. E será a primeira oportunidade desde 1999 que a bandeira verde será agitada sem nenhum piloto do Brasil no grid de largada.

Como Tony Kanaan competirá apenas nos circuitos ovais (Texas, Iowa, Gateway e nas 500 Milhas de Indianápolis) em sua temporada de despedida (chamada de #TKLastLap, ou a última volta de Kanaan), a prova no misto de Indianápolis não contará com nenhum representante do país que já venceu o campeonato cinco vezes e a Indy 500 em sete ocasiões – conquistas divididas entre Emerson Fittipaldi, Gil de Ferran, Hélio Castroneves, Cristiano da Matta e o próprio Kanaan, que ao não correr no próximo fim de semana, encerrará uma incrível sequência de 318 largadas consecutivas na categoria, um recorde absoluto.

Além do campeão da IRL em 2004, a prova terá a ausência de Felipe Nasr, que estava confirmado para o GP de St. Petersburg em março, adiado em função da pandemia da Covid-19. Nasr manteve relações com a equipe Carlin, mesmo tendo ficado de fora da etapa que de fato marcou a abertura da Fórmula Indy neste ano, dia 6 de junho, no Texas.

Mas no mesmo fim de semana da primeira de três aparições previstas da categoria para 2020 em seu autódromo mais famoso, ele estará em seu protótipo Cadillac DPi-V.R a serviço de sua equipe (chefiada por outro brasileiro ex-Indy, Christian Fittipaldi) na IMSA, que também retorna suas atividades, com uma prova no circuito misto de Daytona.

Assim, a corrida do próximo fim de semana será a primeira da história do autódromo de Indianápolis sem um brasileiro desde a primeira aparição de Fittipaldi, em 1984. E apenas a décima quarta prova na história, desde o mesmo ano, sem um representante do Brasil.

O começo de tudo

O início da era brasileira na Fórmula Indy se deu em 1984, quando Emerson Fittipaldi, após três anos sem competir em categorias de primeiro nível no automobilismo internacional, fez sua estreia em solo americano.

O primeiro ano, no entanto, não foi nada fácil para o já bicampeão mundial de Fórmula 1: Fittipaldi correu as três primeiras provas da temporada, em Long Beach (onde estreou com um bom quinto lugar), Phoenix e Indianápolis, com o famoso March rosa da W.I.T., equipe do panamenho Pepe Romero.

No entanto, após as 500 Milhas, o dono do time simplesmente desapareceu – Emerson e sua equipe souberam que ele havia sido preso por suposto envolvimento com drogas. Era preciso procurar outro time, o que explica o primeiro hiato na presença de brasileiros na categoria.

Os primeiros anos de Fittipaldi nos Estados Unidos (FOTO: Indianapolis Motor Speedway)

Sem equipe, Fittipaldi perdeu as provas seguintes, em Milwaukee e Portland, ambas em junho, mas conseguiu um acordo para retornar ao grid em julho, na prova do circuito de rua de Meadowlands, na região de Nova Iorque. Ele defenderia a H&R, equipe que tinha entre seus líderes o já veterano Gary Bettenhausen, que havia competido com algum sucesso na equipe Penske nos anos 70 e era o filho mais velho do bicampeão da Indy em 1951 e 1958, Tony Bettenhausen.

Fittipaldi arrancou um sétimo lugar em sua prova de estreia, a duas voltas do vencedor, mas não conseguiu completar a corrida seguinte, em Cleveland. Terminava por aí o acordo com a esforçada mas financeiramente limitada equipe, que voltaria a ter o próprio Bettenhausen (cujo irmão, Tony Jr., teve um time com o sobrenome da família nos anos 80 e 90) como piloto nas corridas seguintes.

Novamente sem contrato, Emerson perderia as provas de Michigan, Elkhart Lake e Pocono antes de arranjar um acordo com a equipe pela qual se sagraria campeão da categoria cinco anos mais tarde: a Patrick. Ele seria companheiro do consagrado e experiente americano Gordon Johncock, já um campeão da Indy e bicampeão das 500 Milhas de Indianápolis.

A vaga que o brasileiro ocuparia seria a de Chip Ganassi, ele mesmo, o dono da equipe que leva seu nome e pela qual compete o pentacampeão Scott Dixon. Ganassi sofreu um acidente gravíssimo nas 500 Milhas de Michigan que o obrigou a encerrar a carreira. Emerson assumiria o carro na prova de Mid-Ohio, onde conquistou o melhor resultado de seu ano de estreia, um quarto lugar.

Ele ainda competiu no trioval canadense de Sanair e em uma prova de menor duração em Michigan, antes de ficar de fora da segunda corrida em Phoenix e da etapa de Laguna Seca, onde foi substituído por Pancho Carter e pelo italiano Bruno Giacomelli (que já havia competido pelas equipes McLaren, Alfa Romeo e Toleman na Fórmula 1), respectivamente. Fittipaldi voltou na última prova do ano, no Caesar’s Palace, em Las Vegas e, a partir daí, nunca mais um brasileiro deixou de alinhar no grid de uma corrida sancionada pela CART/Champ Car.

IRL, o começo

No começo da temporada 1996, havia oito brasileiros na Fórmula Indy. Todos eles na CART, nenhum na IRL, a nova liga de provas do tipo criada por Tony George, então proprietário do Indianapolis Motor Speedway. Nas duas primeiras provas da IRL, no recém-inaugurado Walt Disney World Speedway e em Phoenix, nenhum brasileiro alinhou no grid. A situação mudaria apenas para as 500 Milhas de Indianápolis, terceira e última corrida da curta temporada inaugural (a IRL, na época, pretendia fazer temporadas bianuais que seriam encerradas na Indy 500, mas mudou de ideia ainda durante a primeira tentativa, na temporada 1996-97, que iniciaria meses depois).

Na nova liga, o primeiro representante brasileiro seria Marco Greco, que correu as duas primeiras provas da CART naquele ano, em Homestead e na primeira corrida brasileira da história, em Jacarepaguá, pela equipe Scandia-Simon. Ele foi contratado para pilotar um dos três carros da equipe A.J. Foyt nas 500 Milhas de Indianápolis e se tornou o primeiro brasileiro a competir pelo time do lendário heptcampeão, passos que seriam seguidos por Airton Daré, Felipe Giaffone, Vítor Meira, Bruno Junqueira, Matheus Leist e Kanaan.

Marco Greco (FOTO: INDYCAR/Indianapolis Motor Speedway)

Greco, que chegou a pilotar no Mundial de Motociclismo das 500cc, havia se mudado para os EUA em 1992 para correr na Indy Lights e já competia em provas da Indy desde 1993. Ele largou em 22º e abandonou a prova com um motor estourado antes da metade, sendo classificado em 26º.

Seu melhor momento viria na temporada seguinte, quando defendeu três times diferentes: ele correu as duas primeiras provas pela equipe Arizona, as quatro seguintes pela Scandia e as quatro últimas pela tradicional Galles, pela qual largou na pole em New Hampshire em 1997, onde liderou por 34 voltas antes de abandonar. Foi o quarto colocado no campeonato, atrás de Tony Stewart, Davey Hamilton e Eddie Cheever, à frente de vencedores como Arie Luyendyk, Scott Goodyear e Roberto Guerrero.

A temporada 1997 ainda marcou a passagem de Affonso Giaffone Netto pela Indy. Ele havia sido o terceiro colocado na Indy Lights em 1995, atrás do campeão Greg Moore e de Robbie Buhl. Affonso, primo de Felipe Giaffone, fez naquela ocasião uma prova pela equipe Scandia e outras sete pela Chitwood Motorsports. Seu melhor resultado foi um quarto lugar em Charlotte.

Na prova mais esperada do ano, um momento de pura infelicidade: apesar de ter se classificado num bom 14º lugar no grid, Affonsinho se envolveu numa confusão na volta de apresentação com o francês Stephan Gregoire e o sueco Kenny Bräck (futuro campeão das próprias 500 Milhas e da IRL), que estavam ao seu lado na quinta fila. Resultado? Todos foram da prova antes mesmo da bandeira verde. O paulista ainda tentou se classificar para a prova da Disney em 98, mas ficou fora do grid e não voltou a competir.

1999, o último ano de ausência

Depois de um 1998 com algumas boas notícias aos brasileiros na IRL, como o único pódio da carreira de Greco (em Dover) e a chegada do experiente Raul Boesel, as coisas não foram tão boas para os pilotos do país em 1999. Greco, que no ano anterior havia formado sua própria equipe, a Phoenix Racing, sob chefia do experiente Dick Simon, competiu em apenas uma prova no ano seguinte, por coincidência, no oval homônimo de uma milha, em Phoenix, no Arizona. Foi o fim de sua carreira na Indy e no automobilismo.

Já Boesel fez as três primeiras provas do ano, na Disney, Phoenix e Charlotte, pela mesma equipe McCormack que defendeu em sua temporada de estreia na IRL e pela qual chegou a obter um quinto lugar na corrida de estreia. Na quarta etapa, em Indianápolis, se transferiu para a Brant, única equipe do grid que usava os chassis Riley & Scott, bem menos competitivos do que os Dallara e G-Force. Por este time, competiu ainda no Texas, Pikes Peak e Atlanta, onde obteve seu melhor resultado, um 11º lugar. A temporada do paranaense terminava por ali, ainda que Boesel fizesse aparições posteriores na categoria, de 2000 a 2002.

Roberto Moreno competiu em cinco corridas da IRL e 120 na CART (FOTO: INDYCAR)

Os outros brasileiros que chegaram a competir naquele ano foram Gualter Salles, que correu apenas a prova da Disney pela equipe TriStar, que tinha o já campeão da categoria Tony Stewart como um de seus sócios; e Roberto «Pupo» Moreno, que correu em Phoenix (onde obteve seu melhor resultado, um sexto lugar), Charlotte e Indianápolis pela equipe Truscelli. No resto do ano, Moreno se dedicou à CART, onde substituiu os acidentados Mark Blundell (da PacWest, onde era companheiro do também brasileiro Maurício Gugelmin) e Christian Fittipaldi (na Newman-Haas).

Desta forma, a última prova sem um brasileiro no grid na Indy, até 2020, foi em 17 de outubro de 1999, no Texas, em corrida vencida por Mark Dismore e que consagrou Greg Ray como campeão da IRL naquela temporada. Além da prova derradeira do ano, as corridas imediatamente anteriores, em Dover, na segunda prova de Pikes Peak e e Las Vegas, também não contaram com pilotos do único país de língua portuguesa da América Latina.

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