domingo, octubre 25, 2020

Especial Indy 500: A incrível história de uma mulher à frente do seu tempo – e de muitos marmanjos

Faltam 27 dias para as 500 Milhas de Indianápolis. Seria bastante lógico – e meritório – citar aqui os triunfos de Jacques Villeneuve e Dario Franchitti, em 1995 e 2007, respectivamente, a bordo do carro #27, como link para este texto. Mas decidimos usar como gancho o número estampado no bólido pilotado por Janet Guthrie, em 1977, quando esta nativa de Iowa se tornou a primeira mulher a alinhar no grid da maior prova do mundo. Mas não foi só isso: ela é dona de uma grande história.

Nascida em 1938, Janet já havia pilotado um aeroplano aos 13 anos de idade, saltado de paraquedas aos 16 e possuía uma licença de piloto desde os 17. Aos 22, possuía licença para ser piloto comercial e era uma qualificada instrutora de vôo. Se formou em física, virou pesquisadora e engenheira da fabricante de aeronaves Republic Aviation. Anos depois, comprou dois Jaguars, o último um XK140, para competir em provas de carros-esporte, onde conseguiu duas vitórias em categorias nas 12 Horas de Sebring.

Em 1976, o chefe de equipe Rolla Vollstedt teve a ideia de buscar uma mulher para pilotar um de seus carros e atrair a atenção de patrocinadores. As pessoas que consultou foram unânimes em apontar o nome de Janet, já com 38 anos, como o mais apropriado. Chegou o Mês de Maio e lá estava ela. Foi aprovada no teste de orientação aos novatos, mas a situação não era fácil: ela enfrentou uma série de percalços mecânicos ao longo do mês. Num ambiente masculino por natureza, a descrença sobre a capacidade de uma mulher de guiar um carro numa das provas mais difíceis e desgastantes do mundo só crescia.

Chegava o domingo do Bump Day, quarto e último dia de classificação para a prova, mas nada de Janet tentar se classificar. Aí apareceu Tony Hulman, empresário que comprou o autódromo no fim de 1945 – e o salvou da ruína, diga-se. Ele foi até A. J. Foyt, que já havia se garantido na segunda fila do grid, pedir que o texano cedesse seu carro reserva, com o qual havia virado acima de 190 MPH (cerca de 305 km/h) de média nos treinos, para que Janet pudesse fazer uma tentativa. Acordo feito, lá foi ela para a pista, num treino livre antes da classificatória derradeira. E não fez feio: andou na casa de 180 MPH (289,62 km/h), muito melhor do que tudo que ela havia feito com seu carro até então e que a colocava na briga por uma vaga no grid. Sem um acordo de patrocínio, porém, Janet não foi à pista no Bump Day e ficou de fora da prova.

O frisson em torno de seu desempenho, no entanto, lhe abriu outra porta. Atento ao que acontecia em Indianápolis, o então presidente do Charlotte Motor Speedway, Humpy Wheeler, rapidamente arranjou um acordo com a famosa equipe Holman-Moody para que ela competisse na World 600 – atual Coca-Cola 600 -, da então chamada Nascar Winston Cup, que aconteceria no mesmo dia da Indy 500. Janet voou a Charlotte e se classificou em 27ª entre 40 competidores. As vendas de ingresso para a prova dispararam. Na prova, recebeu a bandeirada no 15º lugar. Completou 569 das 600 milhas da prova. E se tornou a primeira mulher da história a disputar uma corrida da Cup.

Chegou 1977 e Janet estava em Indianápolis novamente. No Bump Day, cravou 188 MPH (302 km/h), num treino em que Tom Sneva fez a pole e quebrou, pela primeira vez, a barreira das 200 MPH (320 km/h) no Speedway, para garantir um honroso 26º lugar no grid. Desbancou pilotos bem mais experientes, como Vern Schuppan, Graham McRae, Salt Walther e até um certo Rick Mears, que fazia sua primeira tentativa de classificação na badalada corrida. O que importa é que Janet Guthrie estava no grid e agora era tudo alegria.

Bom, nem tanto.

Desde 1955, a largada era antecedida pela tradicional ordem ao microfone de Tony Hulman: «gentlemen, start your engines», uma frase que dispensa traduções e é usada até hoje. Pela primeira, no entanto, haveria uma lady (senhora) em meio aos gentlemen (senhores). E, na semana da corrida, a administração do circuito bateu pé e disse que não alteraria uma frase já integrada às tradições da prova. Uma das justificativas era de que os motores dos carros eram acionados através de um dispositivo elétrico externo, manuseado por um mecânico. E apenas homens faziam tal função.

Então, o que fazer?

A solução não poderia ter sido melhor: arranjar uma mulher para acionar o motor do carro que teria outra mulher na pilotagem! E lá foi Kay Bignotti, filha do primeiro tricampeão da prova, Louis Meyer, e esposa do campeoníssimo chefe de equipe George Bignotti, designada especialmente para dar a partida no motor do carro #27 quando a ordem fosse dada ao microfone, fosse ela direcionada somente aos homens ou extensiva às mulheres. Um contra-ataque puro, já que após colocar o carro de Janet em funcionamento, Kay voltaria aos boxes do time do marido para trabalhar com ele.

O staff do Indianapolis Motor Speedway fez silêncio sobre o que faria com a já consolidada frase antes da largada. Até que, por volta de 11 horas da manhã, horário local, de 29 de maio 1977, Tony Hulman pegou o microfone e anunciou: «in company with the first lady ever to qualify at Indianapolis, gentlemen, start your engines». Em tradução livre: “na companhia da primeira mulher da história a se classificar para Indianápolis, senhores, liguem seus motores!”.

Janet Guthrie havia conquistado muito mais do que uma vaga no grid.

A jornada de Janet em sua primeira Indy 500 só não foi melhor pois ela continuava dotada de um carro problemático, que a levou a abandonar após somente 27 voltas. Ela ainda competiria na prova nos dois anos seguintes, tendo como melhor resultado um nono lugar em 1978 – o melhor resultado de uma mulher até o 4º lugar de Danica Patrick em 2005, que seria superado por um 3º posto da mesma Danica em 2009.

Ainda em 1977, ela já havia se tornado a primeira mulher a competir nas 500 Milhas de Daytona, com um 12º lugar, uma posição abaixo de seu melhor resultado na prova, obtido em 1980. Janet ainda obteve pela Nascar um sexto lugar em Bristol, também na temporada 77, o melhor resultado de uma mulher na Cup Series até hoje – junto com Danica, que chegou em sexto em Atlanta ’14. Depois disso, Janet passou três anos em busca de patrocínio para seguir, sem sucesso, o que levou a brava competidora, hoje com 81 anos, à aposentadoria das pistas. Nem precisava mais. Seu nome e seus feitos já estavam escritos em letras garrafais na história.

Ah: o vencedor das 500 Milhas em 77 foi Foyt, o mesmo que cedeu seu carro-reserva um ano antes para Janet provar sua capacidade de ser rápida em meio aos homens, o que tornou o SuperTex o primeiro tetracampeão da história de Indy. Também foi a última testemunhada por Tony Hulman, o homem que arranjou o teste com Foyt, que morreria em outubro daquele ano.

Texto: Geferson Kern / colaborador Brasil do IndyCarLatinos.com

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