miércoles, octubre 28, 2020

Especial Indy 500: O ano em que a Ferrari conquistou o mundo, mas sucumbiu a Indianápolis

Faltam 25 dias para as 500 Milhas de Indianápolis. Que, a partir de 2022, pode ter a participação da Ferrari, ela mesma, ao menos como fornecedora de motores. A montadora italiana revelou ter interesse na Fórmula Indy e Roger Penske, o chefão da categoria e do autódromo de Indianápolis, já admitiu estar em negociações com a casa do cavallino rampante.

Essa história nos remete a 1952, ano da única participação da Scuderia na prova mais charmosa do mundo. Naquele ano, seu piloto oficial, o também italiano Alberto Ascari, foi o 25º mais rápido nas tomadas de tempo, mas largou em 19º, já que alguns dos que foram mais velozes do que ele registraram seus tempos em treinos classificatórios posteriores. Aquele foi o ano em que Ascari e a Ferrari conquistaram o mundo, mas sucumbiram às dificuldades que só a Indy 500 oferece.

Em 52, a Ferrari conquistou todas as vitórias do Mundial de Fórmula 1, com exceção justamente das 500 Milhas. Ascari venceu seis das oito etapas: só não chegou em primeiro em Indianápolis (que fazia parte do calendário do campeonato mundial) e na abertura do campeonato, no GP da Suíça em Bremgarten, onde não participou pois estava nos EUA, já que a data da prova suíça era em meio aos treinos para a Indy 500. Seu compatriota e companheiro de equipe Piero Taruffi foi o vencedor daquela etapa.

O velocíssimo piloto italiano encarou o desafio com um Ferrari 375, um bólido de Fórmula 1 adaptado para enfrentar as exigências do circuito oval, com maior distância entre eixos e aumento na cilindrada do motor. O carro foi inscrito com o #12, uma alusão clara a seu imponente propulsor V12, um antagonismo aos simples e eficientes motores de quatro cilindros da lendária fabricante americana Offenhauser (ou apenas Offy) que equiparam 29 dos 33 carros presentes do grid.

Para a prova daquele ano, quatro modelos 375 foram enviados da Itália aos EUA. Três deles, de times particulares, seriam pilotados por Johnnie Parsons (campeão da Indy em 1949 e da própria prova em 1950), Bobby Ball e Johnny Mauro, um fã de carros italianos que havia sido o último a disputar a prova com um carro Alfa Romeo, em 1948. O outro, naturalmente, seria da equipe oficial, com Ascari a bordo, o único modelo todo pintado de vermelho como manda a tradição.

Segundo o autor Henri Greuter, os carros da Ferrari em Indianápolis possuíam um simples problema: não eram rápidos o suficiente. Os italianos chegaram a mandar vir da Itália novos carburadores Weber, com corpos quádruplos em vez de duplos, para tentar solucionar a falta de velocidade, mas com pouco sucesso. Nenhum dos carros particulares conseguiu se classificar: Johnnie Parsons usou o mesmo carro que o deu o 2º lugar em 1949 e a vitória na prova de 1950 para arranjar uma vaga no grid. Bobby Ball também recorreu a um modelo americano para garantir sua vaga. Já Johnny Mauro ficou mesmo de fora.

Restava Ascari. Com uma modificação feita por dois de seus mecânicos para aumentar a entrada de ar nos carburadores (detalhe: os carros americanos já possuíam alimentação pelo sistema de injeção de combustível desde o fim dos anos 40), ele conseguiu a classificação. A regularidade do ás italiano impressionou: em suas voltas de classificação, a diferença entre sua melhor e pior passagem foi de meros 0s08, algo impressionante num tempo de tecnologia extremamente limitada para ditar o ritmo dos carros. 

Se a Ferrari não enchia os olhos dos americanos, o mesmo não podia ser dito sobre Ascari, que, na corrida, impressionou ao ultrapassar diversos carros em uma mesma volta e chegou a estar em 8º, com uma estratégia conservadora de ritmo de prova para fazer apenas dois pit stops. Mas sua aventura durou pouco: na volta 40 das 200, quando era o 12º, uma quebra na roda traseira direita o fez rodar na curva 3. Ele tentou explicar aos fiscais de pista que queria levar o carro aos boxes, mas sua inabilidade em falar inglês dificultou as coisas. A corrida terminava ali para o futuro bicampeão mundial, classificado apenas em 31º dentre os 33 carros.

A Ferrari prometia ser a grande atração da prova, mas as 500 Milhas naquele ano ficaram marcadas por dois outros fatos: a primeira pole position de um carro diesel na história, com motor Cummins, pelas mãos de Fred Agabashian; um carro pesado e difícil que abandonou com problemas no turbo (sim, os turbocompressores já estavam lá) após 71 voltas mas que era rápido o suficiente para largar na ponta. E a vitória do homem mais jovem, até hoje, a vencer a prova: Troy Ruttman, que cruzou a linha de chegada na frente quando tinha apenas 22 anos e 80 dias de vida.

Nas 17 provas disputadas no Mundial de Fórmula em 1952 e 1953, a Ferrari venceu 14. Não foi vitoriosa somente nas edições daqueles anos da Indy 500 e na última prova de 53, o GP da Itália, em Monza, vencido pela Maserati de Juan Manuel Fangio. Ascari conquistou os títulos nos dois anos, os dois primeiros mundiais da história da Scuderia. Emplacou uma sequência de nove vitórias consecutivas, nas seis últimas provas de 52 e nas três primeiras (sem considerar Indianápolis, para onde as equipes europeias praticamente jamais iam) de 53, fato só igualado mais de meio século depois por Michael Schumacher e Sebastian Vettel. Era a força dominante daqueles dias.

Mesmo com tamanho poder de fogo, faltou à Ferrari vencer o desafio de Indianápolis. Será que em 2022, exatos 70 anos após a aventura de uma de suas primeiras lendas no templo da velocidade, os italianos retornarão para se reencontrar com o próprio passado? O tempo trará a resposta.

Texto: Geferson Kern / colaborador Brasil do IndyCarLatinos.com

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