jueves, octubre 29, 2020

Especial Indy 500: Reabilitação e incredulidade, a histórica 100ª edição da Indy 500

Texto: Geferson Kern / colaborador Brasil do IndyCarLatinos.com

Faltam 05 dias para as 500 Milhas de Indianápolis. O carro número 05, de James Hinchcliffe, foi o pole position da história edição de número cem da maior prova do planeta, em 2016. Uma reabilitação maravilhosa numa corrida de desfecho e heroi improváveis. Mais Indianápolis, impossível.

Seria outra edição especialíssima das 500 Milhas, para encerrar de vez os fatos centenários da prova – celebrados antes em 2009, com os cem anos do autódromo; e em 2011, com os cem anos da própria prova. Aliás, a centésima edição ocorreria no mesmo dia da prova de embasbacante final cinco anos antes, o predestinado dia 29 de maio. O clima não poderia ser melhor: primeira grande prova do automobilismo a atingir a marca de uma centena de realizações, a prova ainda coincidiria com o bicentenário do estado de Indiana. Pela primeira vez na história, os 350 mil ingressos colocados à venda foram completamente esgotados, seja nas arquibancadas ou nos campings no infield. O que fez com o tradicional delay na transmissão da prova da TV ABC para a cidade de Indianápolis fosse, também de forma inédita, suprimido. A capital do automobilismo no planeta veria a assistira à histórica prova realmente ao vivo, seja nas dependências de seu coliseu ou em casa pela televisão.

A primeira grande história do Mês de Maio – que, pela terceira vez consecutiva, contava com uma prova coadjuvante, o GP no circuito misto, vencido àquele ano por Simon Pagenaud, da Penske – veio nas classificatórias. No primeiro dia de classificatórias, num treino apertadíssimo, os 11 mais rápidos atingiram a casa de 230 MPH (370 km/h). O mais veloz foi James Hinchcliffe, um carismático canadense que quase morreu na edição anterior: na ocasião, o autointitulado prefeito da fantasiosa cidade de Hinchtown bateu com extrema violência no Carb Day, o treino derradeiro antes das 500 Milhas, na sexta-feira anterior à prova. Uma barra de suspensão do próprio carro perfurou as paredes do cockpit e penetrou na coxa do piloto. Uma situação com similaridades ao que ocorreu no acidente fatal de Ayrton Senna, onde também um braço de suspensão se soltou, mas atingiu a cabeça do brasileiro, o que foi decisivo para sua morte quase instantânea.

O impacto de 126G de força a 367 km/h quase lhe custou a vida. O sangramento era absurdo. O corte provocado pela barra de suspensão era tamanho a ponto de ser possível colocar todo o pulso nele. O médico Timothy Pohlman disse ter trocado todo o sangue do corpo do piloto, então com 29 anos, por três vezes. Quando a porta do elevador do hospital se abriu para que Hinch fosse levado à sala de cirurgia, sua pulsação parou. Quanto perguntado sobre a média de sobreviventes a situações como esta, o dr. Pohlmann é categórico: zero. Mas sua hora ainda não havia chegado: o bravo piloto da Schmidt Peterson – um time liderado por Sam Schmidt, um homem que ficou paraplégico após um acidente na IRL em 2000 – sobreviveu. E dez dias após o incidente, deixou o hospital. Quatro meses depois, estava de novo ao volante de um carro de corridas.

Após perder o restante da temporada 2015, James estava de volta ao carro #5 para correr toda a temporada seguinte. E quando a Indy chegou em sua casa, não se intimidou. Após ser o terceiro no treino livre da sexta-feira e o primeiro na classificatória do sábado, confirmou o desempenho no Fast 9 de domingo. Último a ir à pista, tirou a pole das mãos do surpreendente jovem Josef Newgarden, da Ed Carpenter. Um ano após olhar a morte no olho naquele mesmo lugar, Hinch agora era o centro das atenções de outra forma. Havia acabado de escrever um daqueles capítulos inesquecíveis de Indianápolis. E logo numa edição tão singular da prova.

Uma história maravilhosa que já valeria o ano, mas não nos esqueçamos: a corrida ainda nem começou.

Após duas voltas com Roger Penske como piloto de honra do Pace Car, era dada a bandeira verde. E Hinch iniciou um revezamento de 30 voltas pela liderança com Ryan-Hunter Reay, que largou em 3º. Desde cedo na corrida, a Andretti demonstrava a força que já havia ficado clara na classificação. Carlos Muñoz e o veterano Townsend Bell, também membros do sexteto comandado por Michael Andretti, chegaram em seguida à briga pela ponta. A Penske só se meteria no entrevero na volta 67, com Will Power, após a primeira bandeira amarela do dia, em acidente provocado pelo companheiro Juan Pablo Montoya: o colombiano, que defendia a vitória no ano anterior, provou do próprio veneno ao declarar, dias antes da prova, que as 500 Milhas eram «só mais uma prova». O muro de concreto respondeu da forma mais dura possível.

Os brasileiros apareceram mais tarde na briga pela ponta: Hélio Castroneves tomou a liderança na volta 92, enquanto Tony Kanaan foi para a dianteira na 109ª passagem. A dupla de veteranos se posicionava bem na briga pela vitória, apesar da ameaça constante do pole position Hinchcliffe e da armada da Andretti, capitaneada por Bell e Hunter-Reay. A briga era tão árdua que os companheiros se eliminaram durante rodada de pit-stops após bandeira amarela na volta 115. Bell se tocou com Castroneves quando saía de seu pit e coletou o carro de RHR, que ficou por ali mesmo. O dia havia terminado para o vencedor de 2014. Helinho, por sua vez, praticamente não foi afetado pelo incidente.

A relargada colocou em evidência pilotos que já partiam para estratégias alternativas de paradas. Alex Tagliani, no terceiro carro da Foyt, liderou por duas voltas, até ser superado pelo estreante Alexander Rossi, um americano que fez carreira na Europa e, após três anos como piloto de testes da Caterham e cinco provas disputadas com a Marussia na Fórmula 1, decidiu voltar para casa. O californiano fazia uma estreia decente, tendo largado em 11º com o carro da nova equipe Andretti-Herta, uma associação da Bryan Herta Autosport, que estava ameaçada de fechar as portas no ano anterior por falta de recursos, com o time de mr. Michael.

Rossi lideraria das voltas 129 a 137, quando Castroneves voltou à liderança. A primeira posição da tabela era ocupada recorrentemente também por Kanaan, Hinchcliffe e Muñoz, agora a principal esperança da Andretti de vencer a corrida centenária. Na volta 163, Takuma Sato, da Foyt, acertou o muro na saída da curva 4. Bandeira amarela e correria dos líderes ao box. Poderia até ser a última rodada de pit stops, mas era preciso um número generoso de intervenções do Pace Car dali até o final da prova.

Na relargada, Tony Kanaan rapidamente botou a Ganassi na ponta. O brasileiro era perseguido de perto por Muñoz e o impetuoso Newgarden, que voltava a aparecer em destaque após largar em segundo. O trio se revezava na liderança, mas a ausência de novas amarelas tornava iminente a necessidade de um splash and go para todo o pelotão. Kanaan foi o primeiro a entrar, a dez voltas do final. Em seguida, vieram Newgarden e Muñoz, este a cinco giros da bandeirada. O retorno do trio de líderes à pista veio na ordem inversa. Mas, estranhamente, após – quase – todos terem feito suas paradas, não era nenhum deles que ocupava a ponta. O número que aparecia no topo da torre era o 98, do novato Alexander Rossi.

A economia de combustível feita pelo novato possuía um segredo. Quando se enroscou com Ryan Hunter-Reay nos boxes, Townsend Bell ainda conseguiu retornar à prova. Sem pretensões de vitória, foi incumbido de uma missão: deveria rebocar o novato da equipe associada a Bryan Herta no vácuo de seu carro, de modo a fazer o jovem de então 24 anos economizar combustível. A estratégia foi cumprida à risca. Na volta 197, Rossi assumia a ponta com quase uma volta de vantagem para o restante do pelotão. Ainda assim, para cruzar a linha de chegada sem novo reabastecimento, era preciso se arrastar pela pista. Rossi recebeu a bandeira branca ainda com 20 segundos de vantagem para o antigo pelotão de ponteiros, liderado por Muñoz – praticamente meia volta. Percorreu o giro derradeiro a média de 180 MPH (289 km/h), cerca de 40 MPH (64 km/h) a menos do que a média em condições normais. Cruzou a linha de chegada com menos de cinco segundos de vantagem para o semi-companheiro colombiano.

O sentimento da audiência era o mesmo demonstrado pelo próprio Rossi ao descer do carro, rebocado aos boxes diante de uma pane seca na volta de desaceleração: pura incredulidade. Em sua centésima edição, Indianápolis havia escolhido um novato americano que passava quase despercebido para beber o leite. E Bryan Herta, um piloto sem muito brilho, talvez mais conhecido por ser a vítima preferida de Alessandro Zanardi nos dias de glória da CART – vide The Pass no Saca Rolhas de Laguna Seca em 1996 – agora acumulava as vitórias da prova de cem anos e da edição número cem para seu carro #98.

Não adianta teimar. Os competidores podem escolher correr em Indianápolis, mas é Indianápolis quem designa seus herois.

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